Texto: “A Universidade”, Trecho de “A Relação Universidade – Empresa, a partir do Empreendedorismo”

Extraído da dissertação de mestrado de Alcivam Paulo de Oliveira, A relação Universidade – Empresa, a partir do Empreendedorismo, secção 1.2.1, A Universidade.

Lido em III Debate – Sobre o conceito oficial de Universidade e outras coisas.

A Universidade

A necessidade de delimitarmos o sujeito universidade deve-se, sobretudo, à polissemia que o termo vem assumindo. Se, historicamente, o que chamamos de Ensino Superior sempre foi mais amplo do que chamamos universidade (Charles e Verger, 1996), contemporaneamente a polissemia que o termo vai adquirindo raia a banalização. Basta lembrar de como facilmente certas organizações se autodenominam universidade: “universidade do chopp”, “universidade da terceira idade”, “univercidade”, “universidade corporativa” e assim por diante. Por outro lado, a diversificação e complexificação do Sistema de Ensino Superior (SES)1 (Catani e Oliveira, 2000) propicia igualmente certa confusão entre Ensino Superior e universidade, não raro, confundindo-se instituições isoladas, centros universitários ou faculdades integradas com universidade.

Por sua vez, a relação UE em seu sentido amplo inclui relações com instituições de Ensino Superior (IES)2 as mais diversas, como por exemplo, os estágios obrigatórios que os estudantes, independentemente do tipo de IES a que estejam ligados, devem fazer, obrigando a tais instituições a manterem relações, mesmo que indiretas, com as empresas.
A primeira delimitação a ser feita é justamente excluir do significado de universidade aquelas instituições integrantes do SES que não se autodenominam ou não são denominadas pela moldura legal como universidade, mas como centros universitários, faculdades integradas, faculdades, institutos superiores ou escolas superiores assim como estabelece o Decreto 3860 de 09 de julho de 2001, em seu Capítulo III.
Contudo, considerando que a análise a ser feita busca confrontar identidades tal delimitação parece, ainda, não ser suficiente, pois, mesmo dentre as instituições que se nomeiam ou são nomeadas universidade, ainda há distinções seja em virtude do modelo matricial que assumem3, seja pelas particularidades a elas pertinentes.
Daí a importância de especificarmos o significado que estamos atribuindo a universidade. Não é o caso, contudo, da apresentação de uma proposta ou da descrição de um modelo a ser buscado na realidade. Na verdade, trata-se de parâmetros e critérios que possam balizar a identificação da universidade como um dos sujeitos diretamente envolvidos na pesquisa, sujeito particular em diálogo com a sociedade e, especificamente, com as empresas.
Assim, apontamos seis características que, ao nosso modo de ver, balizam a identidade da universidade.

a) Universidade como instituição que objetiva a produção de conhecimento interessado

A universidade é historicamente reconhecida como lugar de produção do conhecimento culturalmente superior (Charles e Verger, 1996). Ainda que muito do conhecimento desenvolvido entre os séculos XIII e nossa época não tenha sido originado no âmbito das instituições universitárias (Romano, 1998), não se pode ignorar que a pesquisa se constitua em seu principal objetivo e como tal, sua principal característica.
Portanto, ao tratarmos de universidade no presente trabalho, estaremos nos referindo às IES como produtoras de conhecimento na ciência, filosofia e artes. Ademais, do ponto de vista da moldura legal, esta é uma característica que distingue a universidade das outras instituições de Ensino Superior, assim como define o Artigo 52 da Lei 9.394 (Raniere, 2000).
Além de produção de conhecimento, acrescentamos o genitivo interesse ao conhecimento, isto é, ele busca vincular-se ao interesse geral da reprodução e manutenção da espécie e não a interesses imediatistas ou particulares4.
Para a lógica interna da universidade isso significa estabelecer uma identidade capaz de ser referencial crítico para o desenvolvimento de toda a realidade societária assim como de compreender diferenciadamente a dimensão temporal. Ou seja, como espaço “(…) onde é ainda possível pensar a longo prazo e agir em função dele” (Santos, 1996, p. 218), a universidade pode considerar o tempo a partir de sua identidade particular, respeitando, por exemplo, os prazos requeridos pela pesquisa científica, sem se submeter à imediatez do Mercado.

b) Universidade como universitas

O segundo dado a ser considerado como caracterizador de uma universidade é que ela seja lugar de encontro das diversas áreas fundamentais do conhecimento humano5.
Como característica histórica da instituição universitária, a confluência das várias áreas de conhecimento possibilita potencialmente o diálogo entre elas e em seu interior, através dos distintos campos de saber6. Considerando que a evolução do conhecimento superior produziu uma extensa gama de disciplinas, diferenciadas pela particularização de seus objetos de estudo, e considerando ainda a autonomia que cada disciplina e cada ordem de saber foram conquistando (Maia, 1991), a pluralidade de áreas e campos se torna não apenas uma característica, mas uma exigência para a IES ser denominada como universidade. Tal pluralidade garante sua universalidade em termos de produção e comunicação do conhecimento, assim como da formação dos alunos.
Para a lógica interna da universidade, isto significa a oportunidade da autocrítica sob diferentes olhares e a possibilidade de uma abordagem globalizante da realidade através do diálogo interdisciplinar que venha “(…) permitir o concurso orquestrado dos especialistas e a aprendizagem coletiva e intersubjetivamente crítica” (Demo, 1997, p. 143).

c) Universidade como lugar de formação integral

A terceira característica identificadora da universidade é a formação integral dos estudantes. Quer dizer, a universidade deve considerar suas atividades de ensino como aquelas que buscam formar não apenas profissionais e sim cidadãos capazes de articularem seus interesses pessoais com os interesses sociais na “(…) busca da dupla construção e de uma simbiose, de um entrelaçamento, de uma fecundação mútua entre projetos individuais e projetos coletivos” (Machado, 1997, p. 70), trazendo consigo uma postura crítica diante da realidade, com competência técnica e compromisso profissional.
A formação integral implica na possibilidade de acesso ao conhecimento científico e domínio de técnicas, formando competências para a inserção dos futuros profissionais no Mercado de trabalho. Mas não só. Ela precisa considerar também que se trata da formação de pessoas que, uma vez inseridas no sistema produtivo irão analisar a realidade, tomar decisões e implementar projetos. Ora, para isso necessitamos muito mais do que competência técnica. Precisamos de capacidade crítica, de discernimento e de iniciativa; faz-se mister um referencial ético e de autonomia suficiente para se tomar o rumo que sua consciência lhes indique (Machado, 1997).
Numa época em que as possibilidades de postura crítica são cada vez mais raras, em que os espaços da sociedade são, cada vez mais, condicionadores de determinados comportamentos alienantes, gerando individualismo e pouca autonomia pessoal (Silva, 1996), a universidade, como lugar social de reserva crítica, não pode abrir mão de oferecer uma formação abrangente, que veja o aluno em sua integralidade de pessoa.
Para a lógica interna da universidade isso implica na organização de atividades e espaços que, para além da formalidade da sala de aula, possam ser oportunidade de formação para os estudantes. É o caso, por exemplo, da política interna (Movimento Estudantil) e das atividades artístico-culturais. É necessário considera-las como atividades-fim de grande importância, pois oportunizam uma formação para o discernimento de valores e para a iniciativa pessoal no compromisso ético.

d) Universidade como centro de interlocução interessada com a sociedade

Tendo na sociedade suas origens e seu destino e sendo umbilicalmente ligada a ela, a instituição universitária imprescinde da relevância social (UNESCO, 1995). Daí ser condição fundamental para sua identidade a interlocução contínua com a sociedade em seus diversos níveis: local, regional, nacional e internacional.
Tal interlocução propicia à universidade o duplo fluxo comunicativo: por um lado, abre-se às necessidades e demandas sociais, acolhendo-as como parâmetros para suas atividades de pesquisa e ensino (Botomé, 1996); por outro lado, apresenta à sociedade os resultados de seu trabalho, ou seja, o conhecimento produzido e a visão de mundo que o exercício de análise da realidade e formação dos estudantes lhe confere (UNESCO, 1995).
Essa busca de equilíbrio significa zelar para não cair em extremos: nem o extremo do fechamento total, nem o extremo da perda de identidade, agindo como se não tivesse um papel específico na sociedade (Botomé, 1996). Na verdade, é ao assumir esta especificidade que a universidade consegue efetivar seu papel de referencial crítico, com uma postura de análise e de proposição, independente de questões conjunturais ou interesses setoriais. Isto é, age segundo aquele mesmo interesse que motiva sua produção de conhecimento, procurando romper com certa tradição histórica que, no Brasil, faz de sua relação com a sociedade um “(…) serviço de fortalecimento da sociedade política e de seu modelo econômico“(Tavares, 1997, p. 199).

Isto implica em que a identidade lógica da universidade precisará buscar a distância adequada da sociedade: ela não poderá estar muito próxima a ponto de se confundir com a sociedade, nem poderá estar muito distante, a ponto de esquecê-la. Só assim a universidade conseguirá tornar-se referencial crítico e construtivo de seu contexto.

e) Universidade como instituição autônoma

Historicamente, esta, talvez, seja a reivindicação mais presente ao longo dos quase oito séculos de vida da universidade. As primeiras corporações universitárias já nasceram sob o signo da busca pela autonomia diante do poder eclesiástico e estatal (Charles e Verger, 1996). Contemporaneamente, esta luta se dá sobretudo diante do Mercado, que tenta apresentar-se como um mecenas moderno (Chauí, 1999). De tal forma que sendo a mais presente na história, é também a característica mais idealista na medida em que nunca é alcançada plenamente.
Para alguns dos grandes pensadores da idéia de universidade, seu fundamento está justamente na sua própria identidade de buscar o conhecimento livre de interesses imediatos como direito da própria humanidade (Drezè e Debelle, 1982). Para Chauí,
(…) A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber em face da religião e do Estado, portanto, na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão (Chauí, 1999, p. 217)

A autonomia universitária implica assim na capacidade de autonormatização acerca de suas atividades de pesquisa, ensino e extensão e no respeito à sua liberdade (de escolher e criar) em termos de organização interna; mas também de evitar qualquer forma de pseudoneutralidade diante das discussões dos conflitos sociais7.
Para a lógica da universidade significa a possibilidade de ter como parâmetros fundamentais de organização interna sua própria missão no que se refere à produção e comunicação do conhecimento e do processo de formação integral dos estudantes. Ou, dito de maneira negativa, significa não vincular direta e mecanicamente sua normatização às demandas econômicas, poderes políticos ou necessidades conjunturais da sociedade mas, respeitando as instâncias da economia, da política e da sociedade como interlocutores e mantenedores ter a liberdade de criar e optar pelo que mais se adeqüe à sua forma de ser e agir.

f) A universidade como instituição policêntrica

A autonomia postulada pela instituição é a mesma que cada uma de suas unidades organizativas, também, reivindicam, pois o fundamento para a autonomia da instituição é o mesmo fundamento da autonomia de cada pesquisador e de cada área de pesquisa. Ao invés de um centro de gerenciamento, a universidade precisa de uma espécie de caos organizado
(…) um certo grau de desordem que permita aos indivíduos e aos grupos de pesquisadores desenvolverem atividades autônomas e estabelecerem entre si intercâmbio formais e informais, dentro e fora de cada instituição, conseguindo, assim, uma eficácia que as instituições dotadas de alto grau de controles formais não são capazes de ter (Cunha, 1999b, p. 128).

É esta “desarrumação” – aos olhos da lógica de outras organizações – que possibilita tanto o diálogo equânime entre as várias instâncias internas quanto a relação de emulação entre os grupos de pesquisadores, fator fundamental no desenvolvimento da ciência (Cunha, 1999b)
Isto implica numa ordenação política interna diferenciada de outras organizações sociais em que, por exemplo, as estratégias de ação e operacionalização são centralizadas. Um dado prático é, justamente, a duplicação de meios para um único fim (Cunha, 1999b). No caso da universidade essa duplicação é não só benéfica como muitas vezes necessária: quantas das descobertas científicas importantes não aconteceram, justamente, por esta duplicação?

ALCIVAM PAULO DE OLIVEIRA

A RELAÇÃO UNIVERSIDADE – EMPRESA, A PARTIR DO EMPREENDEDORISMO: um estudo sobre o confronto de lógicas, no contexto de crises e reformas .
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado, em Educação, da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial, para obtenção do grau de Mestre, em Educação.
ORIENTADORA: Profª. Dr.ª Rosilda Arruda Ferreira

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: